domingo, 2 de maio de 2010

Análise da narrativa A casa da paixão

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE LETRAS ESTRAGEIRAS MODERNAS

Análise de narrativa em
“A casa da paixão”, de Nélida Piñon

Andressa Cristina Molinari
Juliana de Lemos
Maria Aparecida Martins da Silva Mizakami
Romelaine Krezanouski Tonelli

Trabalho apresentado à disciplina 6LET042 – Teoria do Texto Literário, ministrada pela Professora Doutora Sueli Leite.


“A Casa da Paixão” – Uma visão introdutória

A análise narrativa apresentada a seguir trabalha o romance de cunho psicológico “A casa da paixão”, escrito por Nélida Cuiñas Piñon e publicado em 1972.
Nélida nasceu no Rio de Janeiro em 3 de maio de 1937. Morou dois anos em Borela, uma aldeia galega e terra natal de seus avós, onde absorveu valores importantes para muitas das suas obras. Começou a escrever para o jornal universitário Unidade e dois anos mais tarde, em 1959, publicou seus primeiros contos.
Uma de suas características mais marcantes é a busca pela expressão através de uma linguagem nova junto a uma sintaxe pessoal, visto que seu discurso literário tende a fundir posições e contrariar valores pré-estabelecidos.
Essa busca pode ser vista já no primeiro romance que publicou, “Guia-mapa de Gabriel Arcanjo”, em 1961, o qual a crítica literária da época considerou uma obra inovadora quanto à linguagem, porém um tanto indecifrável.
Foi justamente seu anseio pela mudança nas formas narrativas conhecidas até então – forma fechada, limitadora e implantadora de um único significado, que Nélida alcançou sucesso como escritora.
Além de escritora, atuou como diretora do Laboratório de Criação Literária na Faculdade de Letras da UFRJ, participou do primeiro documento da sociedade civil contra a ditadura, entregue ao Ministro da Justiça em 1977. Também foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 27 de junho de 1989. Recebeu vários títulos e prêmios em reconhecimento pelo seu talento.
A casa da paixão é construída a fim de rejeitar as formas convencionais, além de possuir uma grandeza de intenções, metáforas que representam as forças mais obscuras e misteriosas da vida.
[...] fosse então a pedra o desenho inventado para servir aos seus deuses quando sobre altar exigente invocariam milagres, também imagens, e eu gritaria para Antônia e o pai ouvirem, sem pedir socorro, a salvação de me perder, a salvação da alma está entre minhas pernas, pressenti já menina, quando os raios exaltados do sol me prenderam, (p.58)
A utilização do erotismo é o recurso principal dessa obra e são apresentadas cenas harmônicas e ao mesmo tempo desarmônicas.
[...] De pé ela abriu as pernas como se ele quisesse abrigar-se entre elas. Jerônimo consentia que suas partes mais vivas se manifestassem, amor é o que meu corpo lhe oferece, seu sexo anunciou. (p.89)
As apresentações e explicações a seguir são referentes aos elementos narrativos contidos na obra, os quais abordam o enredo, personagens, espaço e o tempo.
“A Casa da Paixão” - O Romance e seus elementos

O romance é uma forma de narrativa longa, que envolve personagens e conflitos, e tempo e espaço mais dilatados, que a ela se equivale à epopéia dos tempos antigos. Mas, diferentemente da epopéia, ela se volta para o homem como indivíduo, e não como representação da burguesia.
Essa forma de narração surge na Idade Média com o romance de cavalaria, sem compromisso com relatos de fatos históricos. No Renascimento, aparece como romance pastoril e sentimental, e logo depois, seguido pelo romance barroco, de aventuras e bem diferente desse, o romance picaresco. È, no entanto, em Dom Quixote de Cervantes, que podemos localizar o nascimento da narrativa moderna. (Soares, 2000). A narrativa moderna tem como uma de suas características, a crítica dos costumes ou pela sua temática histórica. Essas formas são ás vezes delineadas e identificáveis, outras, porém, são desestruturadas e camufladas.
O enredo, personagens, espaço, tempo, o ponto de vista da narrativa, formam os elementos estruturais do romance.
A classificação dos tipos de romance é variada. Por serem classificações que dependem do ponto de vista, são passíveis de discussão, porém, o objetivo dessa análise não é discutir esse problema, mas utilizar os tipos como referência para a pesquisa.
Para Lukács, o romance é a forma artística que corresponde à fratura entre o sujeito e o mundo, vivida pelo homem contemporâneo.
Distinguiu György Lukacs três tipos fundamentais de romance: o romance do idealismo abstrato, de personagem demoníaco (personagem-problema), cuja consciência é simples para a complexidade do mundo, ( Dom Quixote); o romance psicológico de herói passivo, cuja alma é demasiadamente larga para se adaptar ao mundo, e o romance pedagógico da renúncia consciente que não é nem resignação nem desespero ( Wilhem Meister, de Goethe).
O Romance abstrato tem como característica a fuga da alienação político-social, esse escapismo é uma forma de mostrar a força do amor, que leva os personagens a se sacrificarem pelo amor idealístico, sem fins lucrativos, onde o fim se dará na amálgama do casamento, ou de forma mais trágica, no exílio, prisão, convento, hospício e na pior das hipóteses, em morte. Nele, o amor é visto como forma de redenção.
O romance psicológico, que tem esse termo atribuído a ele por ter como centro semântico a análise da mente humana. Todos os romances ditos psicológicos têm em comum o entendimento do mundo a partir de uma personagem ou do narrador, que se transforma no lugar dos seus pensamentos. A história de uma consciência a análise psicológica da personagem, proveniente da vida secreta e profunda da individualidade.
O romance educativo ou romance de educação não foi encontrado fontes de pesquisas.

Tempo

A narrativa se desenrolará dentro de um fluxo temporal, tanto no plano da diegese, quanto no discurso, pois eles têm uma sucessão de fatos que apresentam uma cronologia ou não.
Do tempo da diegese, os marcadores temporais são as referências aos dias, meses, anos, horas, estações do ano ou determinada época.

Marta surgia horas mais tarde, até o pai compreender com os anos que antes da filha criar novos caminhos , devia ele inventar outros que fatalmente ele percorreria, sendo ela filha da sua carne. (...) (pg. 10)

Já no discurso, essa medição temporal é mais difícil, pois não há um tempo de leitura fixo. Não há uma coincidência perfeita entre o desenrolar cronológico da diegese e a sucessão, no discurso, dos acontecimentos. Aos desencontros entre a ordem dos acontecimentos do plano da diegese, e a ordem que aparecem narradas no discurso, chamaremos de anacronias, terminologia proposta por Gerard Genette.
Às vezes, o romancista prefere montar o discurso pelo desfecho da diegese, tendo que recuar no tempo, o que é chamado de analepse. “Antônia anunciou menina, o pai sentira o soco no peito, (...)” (pg. 7). “Seguiu-a desde pequena, Antônia assistira a seu nascimento, recriminara o pai pelo olhar, (...)” (pg. 19). “Passava os anos em busca da filha. Nenhuma distração substitui aquela. (...)” (pg. 29).

Os resumos, as elipses, aceleram a narrativa, enquanto as descrições minuciosas de um fato, uma ação ou um gesto podem gerar um tempo do discurso superior ao da diegese, determinando um ritmo lento da narrativa.

Ficaram quietas por muito tempo. Antônia, uma respiração acelerada, (...) Marta compreendia, dizendo, não, eu te salvei entre a placenta, o produto vermelho, de mercado e bosque, te extraí da vagina da mulher e seria fácil te mergulhar novamente no olvido, enfiando tua cabeça na água, ou de volta ás trevas de onde saíste, mas eu te salvei, como se salva o peixe nervoso, as escamas deslizam como navalha, como se escolhe o que ainda não se provou. (pg. 23).

Assim como as descrições minuciosas, as digressões que o narrador insere no discurso, suspendem a progressão da diegese, causando um retardamento da narrativa.
“O pai atrás de arbustos, galhos, sob risco de ferir-se descuidava-se ás vezes, assumindo, afinal, a perseguição.” (...) (pg. 33).

È importante também observarmos a construção do tempo psicológico, da dor, da espera, da angústia. Esse tempo é de natureza subjetiva, designa o modo como a personagem sente fluir o tempo, tempo vivencial.
Essa temporalidade diferente em relação ao tempo do calendário e do relógio, é entretecida num presente que se afunda na memória, as vezes se projeta no futuro, e outras pára e se esvazia.
Caracterizando particularmente a diegese do romance psicológico moderno, um fluxo sem interrupções do tempo psicológico.

(...) E a paixão da minha carne, afinal decidida à força dos raios, é semelhante aos que se destinam à morte. Morte eu queria, pelo prazer, pela agonia de privar com pedras brutas, trabalhadas com língua pelas criaturas religiosas, tanto que as depredaram. (...) (pg. 45)

Para tanto, um dos recursos muito usados nos romances contemporâneos é o monólogo interior. Como todo monólogo, não tem intervenções e se diferencia do monólogo tradicional por apresentar o que há de mais íntimo na personagem, mais próximo do inconsciente e, portanto, sem organização lógica, próximo ao que em psicologia, denomina-se fluxo de consciência.
Portanto, é um monólogo que se desenvolve no íntimo da personagem, muitas vezes, um discurso desordenado, livre de regras gramaticais e pontuação. Da personagem Marta, temos muitas vezes flashes de pensamentos. “Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa.” (...) (pg. 45)

Espaço

Também chamado de ambiente, cenário ou localização, o espaço é o conjunto de elementos da paisagem por onde circulam os personagens e se desenrola o enredo.
Essa paisagem pode ser física, ou seja, o espaço onde os personagens se movem.
“(...) tantas vezes a surpreendera em andanças pelos corredores, pulando janelas, perdendo-se nos jardins, (...)” (pg. 9).
Em “A casa da paixão”, os ambientes em que a estória se desenvolve são a casa, o espaço aberto ao redor da casa, e a cidade. A casa era comparada a prisão, algo que a deixava em agonia, por isso preferia a natureza onde se sentia livre para agir como bem quisesse. E por final, a cidade era o inovador, a perspectiva do novo, uma alternativa de liberdade.
Todos os elementos de A casa da paixão estão diretamente ligados a casa onde se passa a história e o ambiente ao redor dela, que guia não só o enredo, mas também seus pensamentos e sentimentos.
Outro espaço também encontrado no romance é o espaço social, o ambiente social em que os personagens se integram. A caracterização deste espaço é feita pela presença de objetos que marcam a classe social da protagonista, como exemplos o piano, “Ao piano ela começava devagar, até que o pai se instalasse ao seu lado, (...)” (pg. 8), o charuto, “Fumava o charuto molhando a ponta no conhaque, até que Marta esquecesse que ele a amava, (...)” (pg. 9), elementos presentes na chamada classe média da época, o charuto, objeto de prazer para empresários, banqueiros e outros. Outro fator também importante é o fato de todos os domingos ir à missa, revelando um traço familiar da classe média; “ No domingo pela manhã escolhia o melhor traje. Assistia à missa obediente ao pai. (...)” (pg. 13).
O ambiente tem conotações físicas e psicológicas; a segunda refere-se ao modo como os personagens enxergam esse ambiente, as sensações que esse ambiente desperta em seus corações, esses aspectos compõem o que se pode chamar de ambiente psicológico.Ele é imprescindível, pois não funciona apenas como plano de fundo, mas influencia diretamente no desenvolvimento do enredo, unindo-se ao tempo.” A casa naufragava na penumbra. (...) Contentava-se com as terras em torno, algo mais avançado do seu corpo. (...) “(pg. 31).

“(...) Iludiu-se brevemente com a natureza, o verde escavava sua alma (...) Logo atingindo o rio, passearia sobre águas, (...) Ela afundou o rosto na terra, brincava com gravetos. (...)” (pg. 33).” (...) Marta atrás, sua corrida era vencer o homem, porque ao sul o pai encostava na cidade, a muralha de Jerusalém, (...)” (pg. 87)

Enredo

O enredo de “A Casa da Paixão”, quarto romance de Nélida Piñon, é mínimo, porém complexo. Em linhas gerais trata-se de uma história aparentemente tradicional – uma jovem em busca da liberdade e autoconhecimento inserida em um ambiente tradicionalista, de costumes antigos. O que torna a narrativa complexa e densa é o forte apelo erótico da obra, paradoxalmente suavizado pela narrativa poética de Nélida, o que permite a algumas expressões vulgares, se usadas no dia-a-dia se tornarem brandas e líricas.
Em “A Casa da Paixão”, quatro personagens atuam na trama: Marta, órfã de mãe e que desejava desbravar os limites de seu corpo; Antônia, sua ama; o pai, que não recebeu nome pela autora, de atitudes ambíguas – ora zeloso, ora apaixonado de forma incestuosa pela filha; Jerônimo, o pretendente escolhido pelo pai para consumar o amor com/de Marta.
A trama inicia-se com Marta em seu momento de adoração ao Sol e suas indagações a despeito de sua missão, enquanto mulher e seu desejo de ser dona de si e entregar-se ao seu destino quando e conforme quisesse. Entretanto, seus anseios enfrentam uma série de obstáculos, obstáculos esses impostos pela tradição da época, representada por seu pai.
Marta, a protagonista, órfã de mãe e criada por Antônia, sua ama, é em muitos momentos da narrativa alvo de desejo para seu pai, que nutria uma amor incestuoso por Marta, amor este que o fazia transpirar e abandonar, mesmo que por alguns instantes, sua racionalidade, a ponto de se comportar como um animal.
Em um determinado ponto da história, esse desejo desenfreado leva o pai a tomar uma decisão: escolher um pretendente para sua filha, o Jerônimo, que passa a habitar a casa da família temporariamente.
O clímax da narrativa se dá na ocasião da escolha de Marta em tornar-se mulher e entregar-se ao seu escolhido – Jerônimo, desbravando assim o seu corpo, sua casa da paixão, chegando ao desfecho da narrativa convencida de pertencer a dois homens – ao Sol e a Jerônimo.
Uma característica muito peculiar da narrativa é a forma como as personagens se relacionam com os elementos da natureza, bem como constantes equiparações à animais, demonstrando clara alusão à uma época anterior à razão, a época da criação:
Da terra, Marta escolhia qualquer recanto. Fechava os olhos tropeçando contra pedras, galhos livres, perdendo às vezes a esperança. Até não suportar o próprio suor e exclamava:
- Aqui conhecerei o repouso. (p.7)
Amava o sol, sob a luz imitava lagarto, passividade que os da própria casa jamais compreenderam, parecendo-lhes proibido que se amasse tanto o que ninguém jamais amara tão devotada. Mal se sentava, as pernas abriam-se escorregadias sobre o solo, exigindo o esforço da pele ressentida, extraía da areia, da grama, o que fosse, sua aspereza. Dava-lhe gosto olhar as pernas escancaradas sem que o homem ocupasse suas coxas, a obrigasse tombar sentindo mágicas contorções. O exercício de usufruir alguma coisa próxima ao prazer distinguia-a. (p.7) [...] Pela identidade que descobriu e a certeza de evoluir sempre que se entregasse exaltada à sua paixão. (p.7-8)

Personagens

Como anteriormente mencionado, são quatro as personagens que integram a trama: Marta, Antônia, o pai, e Jerônimo.
Marta, a protagonista, personagem redonda conforme classificação de Vitor Manuel, de complexidade muito acentuada, é descrita na obra como uma mulher no auge de seu apetite por descobertas sexuais e até mesmo comparada a uma cadela, enaltecendo esse furor correlacionando-o ao cio. Introspectiva, passa quase toda sua vida a adorar o Sol e a se entregar ao seu poder transformador e criador da vida. Nestes momentos de introspecção, Marta deixa-se levar pelas veredas do autoconhecimento, da vontade de ser livre e dona de seu próprio corpo, sua casa da paixão, e de fazer dele (seu corpo) o que quiser e quando quiser.
Já Antônia, personagem secundária, é uma personagem plana, pois é caracterizada substancialmente como aquela que gosta de restos, desleixada, cujos gestos e hábitos se assemelham aos de uma galinha, por sua função limitada à reprodução, (diferente da figura de cadela, associada à Marta, que poderia manter o coito para fins não reprodutivos, apenas pelo cio, desejo):
Antônia foi escorregando para o centro da terra, onde a galinha também nascia, todos da sua espécie eram concebidos deste modo, no ninho coberto de feno, penas, cheiro enfim que Antônia absorvera e agora vivia em sua pele: ali ela ficou muito tempo, severa, até que as pernas sobre o feno se escancararam e imitaram uma galinha na postura do ovo: Marta percebia que de tudo Antônia praticava para assimilar o animal, quem a olhasse não duvidaria, tanta a sua transcendência, como que a velha abdicara de sua figura humana a pretexto de ser a galinha que abandonou a luta após ingente tarefa, seu rosto assinalava o rigor da procriação, tremiam suas bochechas, os dentes, tão dilatada pelo esforço que Marta murmurou: que se consinta à criatura abrir seu ventre para a terra: (...) (p. 25 – 24)

Assim ela se mantém durante a trama toda. Antônia cuida de Marta, a quem ela ajudou a nascer com suas próprias mãos.
Já o pai, cuja ausência de nome revela um forte indício de caricaturização social como um modelo de propriamente de pai, idealizado pela sociedade da época – tradicionalista e zeloso pela honra da filha. Entretanto, personagem modelada, evolui na narrativa a ter seus anseios e seu amor incestuoso revelado. É também antagonista, pois se contrapõe à Marta, protagonista, ao estabelecer limites tradicionalistas a sua fome de liberdade.
Jerônimo, o escolhido pelo pai, numa tentativa de se afastar de Marta e proporcionar-lhe o que tanto queria – “Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei” (p. 35), é uma personagem plana, uma vez que permanece a trama toda no papel de macho, aquele a “cruzar” com Antônia e cumprir sua missão no desfecho da história.



Foco Narrativo

No discurso literário de Nélida Piñon, é comum encontrar-se oposições e contrariedades a valores já estabelecidos (conforme citações nesse artigo), como a simbologia cristã e o pensamento clássico, o sagrado e o profano, isso para que o leitor obrigue-se a mergulhar na intriga e perca-se nos mistérios das invenções, da linguagem, da criação. Para ela, o sentido da criação é sondar a idéia de fazer da linguagem um corpo transparente, uma linguagem sagrada de relação com o mundo. Em sua narrativa surge a voz que antecede a tudo isso e sobrevive ao seu significado: [...] pedindo e severa que a chamasse Marta, irmã de Maria, as duas mulheres da Bíblia, testamento antigo ou novo ela não quis saber, sim, será Marta, [...] (p.78)
Em “A casa da paixão”, a autora traz à tona a realidade vivenciada pela mulher durante vários anos, onde ela era subjugada tanto pelo sexo masculino, em sua visão de domínio pleno sobre a mulher enquanto objeto de prazer, quanto pela visão religiosa judaico-cristã da época, onde o corpo da mulher era visto como um “templo” de reprodução, e também a legitimidade da heterossexualidade somente após o casamento religioso. Além dessa crítica, encontra-se certo tom de ironia em alguns trechos do texto em relação ao modo que a mulher começa a responder à estas imposições que lhe eram feitas, onde já previa-se a ruína das mesmas:

[...] morrendo, então, a mulher, deixou-lhe o presságio: Marta, eis a religião, seu último suspiro: Antônia embrulhou a mulher num lençol como não se faz entre cristãos, ditou rezas que os cristãos não admitem, o padre chegando condenou a concentração de cheiros originais em torno da morta, casa difícil é esta, homem, eu lhe digo, cuidado com a filha, se Antônia cuida, Marta se perderá...[...] (p.78)


O texto possui narração onisciente em 3ª pessoa, heterodiegético, cujo intuito é apresentar um ponto de vista imparcial e alheio a todos os acontecimentos que narra, traz uma focalização interna, onde descreve e analisa o comportamento, motivações e sentimentos dos personagens:
[...] uma cabeça livre, sentiu Marta. (p.21).
[...] O pai cerrava as mãos em torno ao livro de missa. Marta era a tortura de sua consciência. (p.17)
A narrativa, por possuir tantas metáforas, parece ter várias intenções, revelando uma visão particular onde a simbologia, a vida e a literatura expressam uma imaginação mítica que alude a época de um passado humano precedente ao progresso da civilização, onde a relação com a natureza era direta, e a intimidade com ela, tão sonhadora:

[...] fosse então a pedra o desenho inventado para servir aos seus deuses quando sobre altar exigente invocariam milagres, também imagens, eu gritaria para Antônia e o pai ouvirem, sem pedir socorro, a salvação de me perder, a salvação da alma está entre minhas pernas, pressenti já menina, quando os raios exaltados do sol me prenderam,[...] (p.58)


O corpo de Marta, a protagonista da estória, é desvelado como “a casa da paixão”, e na intriga, elementos da natureza e sentimentos dos personagens misturam-se, demonstrando as mais diversas sensações e erotização e fantasias:

[...] Ela contemplava o feno quente, juntamente onde o bicho enconstara a parte mais vil do seu corpo, para Marta a mais grata, a ponto de querer enfiar o dedo pelo mesmo caminho que o ovo conheceu, não para sentir o calor que a coisa fechada e silenciosa conservava, mas reconstituir de algum modo a aprendizagem de uma galinha, que Antônia talvez esclarecesse sob o domínio do amor. (p.24-25)


A voz do narrador exerce em “A casa da paixão” a função de representação, pois produz intratextualmente o universo diegético dos personagens Marta, seu pai, Antônia e Jerônimo, nos conduzindo a compreender os fatos, o desenrolar dos mesmos. Não é um texto que deixa dúvidas ao leitor, um texto não confiável, mas os acontecimentos tornam clara qual é a perspectiva de vida de Marta, qual é o desejo do seu pai, suas reações, quem era Antônia, Jerônimo, seus papéis.
O nível de narração é intradiegético, pois acontece no mesmo tempo histórico que é contada a estória, no período onde não poderia haver qualquer pronunciamento erótico, que seria altamente condenável, entretanto, na mente dos personagens é visível darem asas a estes, sem rédeas que os contivesse: [...] Pecado queria, mas atrás vinha o pai,cobrando taxas , um olhar profanando montanhas, suas pernas então os mais ricos vinhedos. (p. 29)

[...] O corpo prateado pelos reflexos de sol, o pai apreciava. (p.34)
[...] eu queria Marta, e na sua frase estava o enigma, situava-se sim, ele, numa imensa parede branca marcada de sangue, regalo de sua abundância mensal, mas jamais o sangue que lhe teria o meu corpo provocado, hemorragia do prazer, se me tivesse ela chamado para participar do festim, eu ingresso em seu corpo, [...] (p.60-61)


Impressões Finais

O erotismo para Nélida é um jogo, que prende o leitor e o tenciona a refletir sobre algo que raramente paramos para contemplar: a criação humana. Esse belíssimo romance sacramenta o cotidiano e santifica o corpo feminino, a grande oferenda. Através do texto rebuscado, a autora expõe sua obsessão e mostra resistência a qualquer sistema que queira aprisionar ou privar parte de sua criação de linguagem. Nas palavras da escritora:
Uma vez que a terra está povoada pelos sentidos humanos, é natural que se impregne o texto da emoção que emana simultaneamente do corpo, do espírito e do mistério. E que passe a ser ato de vida e de rebeldia estética a apropriação do corpo físico e do corpo verbal.

Esta é Nélida Piñon em “A Casa da Paixão”. A que, buscando oferecer um roteiro para a descoberta do nascimento, rasga o tecido da linguagem para, delicada e audaciosamente, suturá-la no âmbito do erotismo dos corpos, do erotismo dos corações, do erotismo sagrado. Na ocasião do lançamento da obra em Portugal em 2007, a escritora declarou: “é um livro que assegura à mulher uma independência extraordinária; ela assume a sua sexualidade mesmo no ato do amor.” (Agência Lusa 03/11/2007)

Referências

AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel. Teoria e Metodologia Literária. São Paulo: Almedina, 1979.

PIÑON, Nélida. A Casa da Paixão. Rio de Janeiro, Record, 1997.

SOARES, Angélica. Gêneros literários. Série princípios, 6º edição, 2000.

http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/R/romance_psicologico.htm - 08/10/2008

http://www.academia.org.br/ - 01/10/2008

http://www.camaraportuguesa.com.br/default.asp?pag=noticias&id_noticia=11378
5/10/2008 18:26:23

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